[TRADUÇÃO] Sander de Vaan entrevista Niels Hav

Poesia não é para covardes

Entrevista com o poeta dinamarquês Niels Hav, realizada por Sander de Vaan. Originalmente publicada na revista holandesa Meander Magazine

 

Entrevistador: Onde você se “localiza” na poesia contemporânea dinamarquesa? (em comparação com seus colegas dinamarqueses)

Niels Hav: Eu nasci na costa oeste, muito longe da capital onde vivo atualmente. Então, de alguma forma, sou um recém-chegado aqui. Assim como os imigrantes árabes, paquistaneses e turcos que moram na minha vizinhança. Eu falava um dialeto rural quando criança. É claro que pertenço ao cenário literário da Dinamarca, mas nunca senti que fizesse parte de alguma geração ou movimento dentro da poesia dinamarquesa. Cheguei aqui com experiências completamente diferentes das que os poetas urbanos vivem. Me lembro como fiquei contente quando conheci os poemas de Ted Hughes e Seamus Heaney, por exemplo, eles escreviam sobre espaços mais amplos, além da periferia urbana e sobre experiências com a natureza e com animais que eu podia rapidamente identificar. Atualmente sou um pombo da cidade grande e me sinto em casa em Copenhague, mas talvez seja a esta posição que eu pertença, um tipo de forasteiro que também tem outras relações e habita outros contextos.

Entrevistador: No poema “Minha Caneta Fantástica” você escreve: “Poesia não é para maricas.” esse verso também expressa sua visão pessoal em relação à poesia?

Niels Hav: Essa é uma boa pergunta, com diversos níveis. É claro que a poesia é para todos, poemas são endereçados a qualquer pessoa. Mas neste verso estou falando sobre a profissão, o ofício, a prática diária de escrever poesia. Trabalhar nesta área pode requerer coragem e perseverança. E uma disposição a renunciar o lirismo individual e o sentimentalismo desenfreado, que sempre ameaçam sufocar a poesia. Uma peculiaridade dos bons poetas: todos os poemas ruins que eles nunca escrevem.
O que eu quero dizer é: a poesia contém elementos de música e alegria, mas não apenas isso. O tempo passa, nós vivemos e morremos. O mundo está pegando fogo. Políticas, bombas, ideologias e religiões devastando o planeta. É sobre isso que os adultos estão conversando – e em seu núcleo mais íntimo o desafio para a arte é se juntar a esta conversa. Descobrir e entender o que está acontecendo, e se possível, dizer as coisas como elas realmente são.
Então, sim, poesia – a profissão – não é para maricas. Você deve encarar a si mesmo e olhar a realidade, Deus, ou o que quer que seja, direto nos olhos. O dever primário da poesia é ser uma conversa íntima com o leitor sobre os mistérios mais profundos da existência.

Entrevistador: Há algum outro poeta, que você acredita ter chegado realmente perto de um “entendimento” em relação a oque está acontecendo em seus poemas? (Se sim, poderia citar alguns versos também?)

Niels Hav: Existem muitos grandes poetas, alguns escreveram uma porção de excelentes poemas cheios de iluminação acerca de questões fundamentais da vida. Mas em nossa cultura parece haver uma tendência de isolar a poesia em uma área periférica. Um poeta que falou muito bem sobre coisas essenciais e insistiu na relevância geral da poesia é o Czeslaw Milosz. Em 2011 seu centenário de aniversário foi celebrado, não apenas na Polônia mas em diversos continentes. Acredito que seja porque ele refletiu profundamente sobre questões que continuam atuais. Mas se eu fosse citar um poeta aqui, seria o poeta chinês Li Bai (701-762). Ele falou algo sobre a importância da poesia e ninguém poderia dizer melhor hoje em dia:

Poemas perfeitos são as únicas construções
que sempre se manterão erguidas.
Onde estão eles agora, os gloriosos palácios
que se destacavam aqui?
Quando o poder está comigo minha pena
agita cinco montanhas sagradas.
De que me interessa todas essas coisas
que as pessoas desejam de gloria, poder, riqueza e fama –
que é isso comparado a escrever poesia?
Antes de eu  ajoelhar diante delas o Rio Amarelo
deverá fluir na direção de suas nascentes.”

Entrevistador: Poderia nos dizer algo sobre a origem do poema “Visita do meu pai”, que possui estes versos maravilhosos: “Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas./Jogue isso fora,/ meu pai diz, elas sempre voltam.” E como ele foi criado?

Niels Hav: Meu pai era fazendeiro e coveiro (ele cuidava do cemitério do vilarejo), economia não era seu hobby, e geralmente sua carteira estava vazia. Quando o carteiro chegava, minha mãe segurando as contas perguntava o que fazer com elas. Jogue fora, ele dizia, elas voltarão. Meu pai morreu há muitos anos, mas em momentos solitários ele ainda vem me visitar para discutir a situação. E, assim como na fazenda, poesia não é a profissão mais lucrativa, raramente há uma boa quantia de dinheiro na poesia – mas talvez, afinal de contas, exista algum tipo de equilíbrio na vida; não há muita poesia no dinheiro também.
Esse é o estímulo pessoal para o poema. Mas se o poema deve interessar a qualquer um além do próprio poeta, ele deve ser, em certa medida, emblemático. Quando escrevo um poema sobre meu pai, o poema deve ser tão bem feito de modo que o leitor possa adentrar o poema e estar lá com seu próprio pai. Não estou cobrindo o leitor com minhas reflexões e sentimentos pessoais – Isso impediria que ele usasse o poema para qualquer outra coisa, e aí ele seria apenas sobre mim. O poema deve ser desenvolvido ou projetado para que o leitor possa se sentir em casa ali com seus próprios pensamentos e sentimentos, e transformar essas palavras em suas próprias palavras. Agora elas pertencem ao leitor ou à leitora. Então, no fim, minhas experiências pessoais são completamente sem importância, eu escrevi o poema e o entreguei para o leitor, para todos. Meu pai nunca teve um passaporte, mas esse poema já foi lido em palcos da China e em Dubai, e parece funcionar bem em árabe e chinês. Todo mundo tem um pai.

Entrevistador: Como você geralmente começa um poema? (A partir de uma palavra, um verso, uma imagem, ou outra coisa?)

Niels Hav: Poesia é uma atividade frustrada, tenho certeza que muitos poetas conhecem essa sensação. Minha esposa é uma pianista clássica, toda manhã ela senta-se ao piano, e eu vou para meu escritório. Na maioria das vezes nada acontece. Eu estou lá, as palavras estão lá, mas nada acontece. Em um dia bom minha confusão e dúvidas podem levar a um poema. É a prática diária e o contato com o material escrito que algumas vezes trazem eletricidade à linguagem e faz as palavras brilharem. Escrevo devagar ou em grandes jorros, mas as coisas são deixadas de lado muitas vezes antes de serem publicadas. Repousam ali e maturam. E às vezes é bem mais tarde que pego o material outra vez e de repente me dou conta de que ali está: isso é um poema. Quando isso acontece é porque o texto guarda surpresas até mesmo para mim. Então o processo ainda é, de alguma forma, misterioso. Um novo poema é um presente, ele pode acontecer de repente, na rua, no trânsito, enquanto você está ocupado com afazeres do dia a dia, uma pequena epifania. Mas um bom poema é mais raro do que um texugo morto na estrada ou um OVNI.

Entrevistador: Versos tão bonitos e verdadeiros como “ Os novos namorados beijam as digitais um do outro / eu sei disso.” – parece ter vindo de um bom observador. Você olha muito em volta em busca de inspiração?

Niels Hav: Beijar é um assunto muito interessante, obrigado por trazê-lo à tona. Quando nos amamos, nos beijamos. Neste jogo a maioria de nós somos espectadores e jogadores ao mesmo tempo. Não sei se realizei mais pesquisas nesta área do que em outras, mas percebi que novos namorados amam tudo que diz respeito um ao outro. O jeito como ela fala, a jaqueta dela, sua caneta e sua bolsa. É a risada dela, o pulso, os quadris, mas também a escova de cabelo dela, seus livros e músicas, sua bicicleta. É o jeito como ela come, suas unhas do pé. O mercado onde ela faz compras e a rua em que ela mora. É ela!
Então, voltando para sua pergunta: Não sei se procuro muito por inspiração. Na maior parte do tempo estou simplesmente vivendo e ocupado com as tarefas diárias. A inspiração aparece quando quer. Mas também escrevo contos, e quando se trata de prosa é claro que pode haver alguns detalhes que requerem alguma pesquisa.

Entrevistador: Você fala inglês muito bem. Seria capaz de escrever um poema nesta língua? Ou a poesia está ligada 100% à sua língua materna?

Niels Hav: Talvez não 100 por cento, infelizmente não sou tão bom assim em inglês. Escrevo quase que exclusivamente em dinamarquês, e meu dinamarquês ainda é influenciado pelo dialeto que eu falava na minha infância. Já escrevi uns poucos poemas em inglês. Estou ligado à minha língua materna – e estou preso no alfabeto latino. Mesmo que eu me comunique em inglês, continuo isolado do resto do mundo. Quantos alfabetos existem em nosso planeta? Ninguém sabe ao certo, mas sozinhos o chinês, o hindu, o bengali e outros alfabetos asiáticos são usados por mais de um terço da população do planeta. E depois tem o alfabeto árabe usado por um bilhão. Muitos escritores árabes e chineses têm vantagem em relação aos seus colegas europeus, eles são capazes de lidar com dois alfabetos. Eu queria que minha ignorância não fosse tão grande.
Então sou dependente de meus tradutores. Em inglês são: Per Brask, Patrick Friesen, Martin Aitken e outros. Na Holanda sou sortudo o bastante para ser traduzido por Jan Baptist, que é fluente em dinamarquês e profundo conhecedor das nuances de linguagem. Ele já traduziu clássicos como Andersen, Leonora Christina e J. P. Jacobsen – estar nesta prateleira é um privilégio.

Entrevistador: Quais são seus “objetivos poéticos” para o futuro próximo?

Niels Hav: Sempre faço muitos planos, mas meus planos geralmente afundam como barquinhos de papel… E claro, sou supersticioso como todo escritor, não me atrevo a falar sobre coisas ainda não escritas, mas estou sempre trabalhando em novos poemas e novas histórias. Eu realmente gostaria de escrever uma obra que reflita a grandeza e beleza do nosso universo, em agradecimento por me ser permitido andar sobre este planeta. Essa ambição colide sempre com a falta de habilidade e as realidades do mundo à nossa volta.

Niels Hav (1949- ) vive na Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo e traduzido para diversos idiomas. A editora Penalux (SP) é responsável pela estreia de Niels nas prateleiras brasileiras, com uma coleção de poemas de sua autoria intitulada “A Alma dança em Seu Berço”,  tradução de Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira.

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